Moscou

Chegamos a Moscou às 16h. O nosso hotel, Metropol, em estilo modernista e art nouveaux, está localizado em frente ao Ópera Bolshoi e tem valor histórico. As pinturas e a arquitetura de Willian Walcot marcam também o hotel que guarda em seu interior, um luxo sem igual. O salão do café é de exuberância e grandiosidade impressionante com a tradicional música que não para com som de arpa no café da manhã e de piano durante o resto do dia.

O Metropol foi o primeiro hotel de luxo de Moscou e transformado em casa do governo na época de Lenin. O salão de chá virou sala de trabalho e alguns aposentos foram ocupados por camaradas, inclusive, Lenin chegou a ocupar uma dessas suítes. Sua localização é perfeita, a apenas 100 metros da praça vermelha. Nosso apartamento da vista ao Bolshoi. O hotel já teve hóspedes ilustres como Bernard Shaw, Bertold Brecht e até David Bowi e que viveram aqui nos tempos da União Soviética. Por ser tão próximo da Ópera que o Metropol hospeda grandes artistas.

 

Detalhes da arte arquitetônica do Hotel                                                        Haal Da recepção do Hotel

O Ópera Bolshoi foi desenhado pelo arquiteto Joseph Bové (Osip Ivanovich Bové) para abrigar espetáculos de ópera e balé. Sua fachada neoclássica, reconstruída diversas vezes, abriga a maior academia de balé do mundo. O edifício do teatro foi inaugurado em 1825 no centro de Moscou, próximo ao Kremlin. Durante a noite, é iluminado de forma a tornar-se o próprio espetáculo.

 

Vista do teatro                                                                                                                    Teatro

 

Estar em Moscou é uma sensação indescritível. Um lugar longe do Brasil, de muito frio, com uma língua difícil e uma história forte conhecida como centro de poder, de astúcia de beleza e curiosidade. Hoje estou nesse local em frente aquilo que um dia foi um sonho.

Na fachada do hotel que dá para o Bolshoi há um baixo relevo com a seguinte inscrição: “Aqui em novembro de 1917, os membros da guarda vermelha e os soldados revolucionários, sob a direção de M.V. Frunze realizaram batalhas encarniçadas contra os cadetes que defendiam o acesso ao Kremlin”.

O pintor Holandês Rembrant com grande representatividade do Museu Hermitage é conhecido por seu desempenho em “Foco e Luz”. Durante essa obra sua primeira esposa falece. O fato mexe muito com a vida e personalidade do pintor, deixando-o numa profunda depressão.

No “Foco e Luz”, a menina se encontra em penumbra e as sombras não a tocam. Parece um espetro que pouco tem a ver com o restante dos personagens. Por essa qualidade, muitos críticos vêm na menina um retrato de Saskia van Uylenburgh (1612-1642), a primeira esposa do pintor, que faleceu, possivelmente, de tuberculose. Saskia era habitual modelo de muitos dos retratos do autor. Veste um traje amarelo limão e na cintura porta um galo branco com pinceladas azuis. Este era o emblema da companhia, que Rembrandt representou desta singular maneira, em substituição do habitual brasão deste tipo de retratos coletivos.

 

No primeiro dia em Moscou fomos fazer uma visita guiada começando muito próximo ao nosso Hotel. O Kremlin foi residência de Ivan I, o Terrível, e dos czares até 1917, na Revolução Russa. Em frente ao Kremlin, tem a Praça Vermelha, uma praça imponente e exuberante de muitas histórias. Dizem brincando que é o segundo aeroporto de Moscou, porque nela desceu um pequeno avião alemão.

 

Em frente da praça está a Catedral de São Basílio, construído na década de 1550 para comemorar a captura da fortaleza mongol de Kazan. Acredito que este seja o monumento que mais caracteriza Moscou, apesar de ser único, com cúpula de cada tamanho e de cada cor, como um bolo de aniversário infantil. O relógio que anuncia a passagem de cada ano está na torre da igreja de Santo Antônio.

 

Também está localizado próximo o enorme mercado GUM, sigla de Gosubdarstwenny Universalny Magazin, com 172.220 metros quadrados (1893). Sempre foi utilizado como mercado com filas imensas onde se compravam bananas, salchichas, pães e outros alimentos, porém durante o comunismo foi transformado em alojamento para os camaradas de Stalin. Oito meses após sua morte foi restaurado integralmente. Há reportagens nas quais o arquiteto Denis Romodim diz de sua dificuldade em reconstruir o mercado em tão pouco tempo.

Hoje o local foi transformado em shopping de luxo, com marcas de grife. O setor de alimentos é ideal para passear e ver cuidadosamente cada produto e cada colocação destes em suas luxuosas vitrines. Pode-se encontrar também algum iogurte ou algo mais trivial. Por sorte e um pouco de observação, vi que a Max Mara estava em festa, pois o mercado comemora seus 120 anos e algumas lojas fazem comemorações diariamente. Entrei e logo fui identificada como turista e convidada a participar com champanhe e uma atenção especial. Valeu.

 

 

Dentro da galeria existe uma fonte conhecida como ponto de encontro, pois é o local marcado para os encontros. Estivemos no Mausoléu de Lenin que tem uma grande história primeiramente por seu lado intelectual, que assumiu o nome Lenin quando estava no exílio na Sibéria, ao lado do rio Reno.

Após a morte de Lenin, o governo russo recebe inúmeras cartas, telegramas, manifestações e pedidos para que o homem que libertou os russos dos czares deveria ser mumificado. Tudo precisava ser muito rápido e um cientista colocou-se à disposição para realizar a mumificação que duraria por apenas dois anos. Durante esse período, resolveram que Lenin deveria ser eternizado. O seu Mausoléu é em forma piramidal, com mármores em duas cores: vermelho, que representa o sangue, e o preto, significa o luto. O corpo está impressionantemente perfeito.

Passamos pela torre onde Sofia ficou confinada até a morte. A construção é em estilo barroco e rosa. Tem vista para o lago onde Tchaikovsky escreve “O Lago Dos Cisnes” por encomenda do Teatro Bolshoi. O local é pequeno, mas a qualidade do artista o fez eterno e grandioso.

 

Vimos o cemitério onde muitas celebridades da história estão enterradas. Todo o sistema viário é em forma de rodoanéis criado pelos russos e copiado por Paris, Roma e São Paulo. Conhecemos o Estádio Olímpico onde foram realizadas as olimpíadas na década de 80 e o Rio Moscou que é todo verde e, como uma serpente, contorna e passa em toda a cidade.

Moscou consegue uma harmonia admirável. Cada época um estilo diferente, mas sempre monumental. Isso torna a cidade grandiosa e ao mesmo tempo harmoniosa.

 

O edifício da Universidade Stalin, por exemplo, é visto de toda parte da cidade. É um prédio marcante e elegante em “estilo monumental” simboliza a vitória na Segunda Guerra Mundial. A maioria das pessoas paga a universidade. Apenas 15% tem isenção, mas ficam vinculados ao governo de alguma forma.
O cinema tem uma importância imensa em Moscou porque na época do socialismo não havia diversão e a sua renda ia para o governo. Por ser barato, as pessoas pagavam e frequentavam quase que diariamente o cinema.

Parque da Sinagoga não deixa a gente esquecer-se dos judeus e seus sofrimentos. Paramos na grandiosa praça que determina a celebração de 50 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial. Com grandes platôs de fotos, fontes, monumental escultura, colunas e muito mais ela é maravilhosa.

 

O Arco do Triunfo celebra a vitória na “Guerra de 1 Dia”, quando venceram Napoleão. Esta guerra teve uma estratégia valiosa. Os russos, supondo que Napoleão vinha de vitórias por muito tempo deveria estar com as tropas cansadas e despreparadas para o frio russo. Por isso retiraram as pessoas de Moscou e botaram fogo. Perderam a cidade, mas não perderam a guerra. O que sobrou é o que vemos hoje: o Kremlin, a praça vermelha e o pequeno centro.

Moscou é a única cidade do mundo onde o metro é turisticamente visitado. Realmente as obras de arte expostos nas estações são maravilhosas. Indo a Rússia dedique algumas horas para essa visita. Com 180 quilômetros de linha cobrindo toda a cidade, o metro foi feito por Stalin na intenção de dar ao trabalhador a sensação que estes tinham os mesmos privilégios que os governantes, como arte, música e esculturas. A iluminação dá a impressão de estarmos numa galeria de arte.

 

O metro funciona como um banque aos moscovitas em caso de guerra. Cada estação tem um tema, assim como a que segue para Kiev. Tem pinturas mostrando a fartura que havia na época (utopia). Outras obras são esculturas de bronze e vitrais. Tudo feito por célebres artistas. Um passeio imperdível.

 

 

Nossa visita guiada acabou por aqui. Paramos no hotel e saímos para almoçar no café Pushkin. Daria para ir a pé, mas estávamos cansados. O táxi em Moscou é absurdamente caro.

O restaurante que tem ao lado uma doceira e casa de chá mantém suas características do passado e o charme na uniformidade do serviço e da gastronomia. Pedimos uma degustação com cinco pratos típicos russos: frango com crostas de batatas fritas em quadradinhos; panquecas com terceiro de carne de porco; estrogonofe; cogumelos gratinados e cordeiro. Tudo delicioso. De sobremesa teve sorvete de frutas vermelhas em tipo de torta coberto com gelatinas que não sei como explicar. Voltamos ao hotel e fomos descansar.

 

No dia seguinte, nós dois visitamos de novos os mesmos lugares que fomos ontem. Fomos almoçar no Pavillion. Sobre um lago, o local é calmo e a gastronomia muito boa, porém acredito ter melhores em Moscou.

Voltamos ao hotel, pois agendamos ir ao teatro. Fomos no tão esperado Balé Bolshoi ver “O Lago do Cisne”, bem em frente ao nosso hotel, como já comentei. Nosso lugar era nos balcões. A princípio, o Wilson não gostou, mas tivemos uma visão fantástica podendo ver a uniformidade, o comprometimento, a elegância sincronizada, enfim, tudo que um espetáculo poderia ter. É indescritível, fabuloso e emocionante.

No terceiro dia acordamos mais cedo para curtir nosso santo café, afinal tem salmão, caviar ao som de harpa. De manhã só em Moscou. A cada dia estávamos mais cansados. O Wilson não queria andar muito e resolveu parar um pouco logo após a porta do Kremlin e vimos que havia algum comércio embaixo da magnífica praça. Achamos que fossem algumas lojinhas para turistas, mas para nossa surpresa são dois pavimentos de ótimas lojas de várias marcas e grifes. Compramos nossos impermeáveis lá, pois aqui chove a cada minuto e esse tipo de roupas é imprescindível.

 

Após as compras, atravessamos o Rio Moscou e tivemos uma das vistas mais lindas sobre a ponte. Do lado direito tem a Igreja de Castro Salvador com suas cúpulas douradas e do lado esquerdo, o Kremlin, atrás da muralha vermelha e árvores. Uma vista fantástica. Vale a pena fazer esse passeio.

Andamos em direção à outra ponte, onde está o hotel Kempiski, que foi totalmente renovado e como não encontramos o restaurante que buscávamos, resolvemos almoçar no hotel e aproveitamos para conhecê-lo. Na verdade procurávamos outro restaurante que provavelmente foi demolido. Meu marido comeu um filé com molho de pimenta e eu, um cordeiro à moda turca. Tudo maravilhoso. Recomendo.

 

O hotel por dentro tem um ambiente moderno, serviço impecável, a gastronomia maravilhosa e a vista da janela para a igreja de São Basílico. Foi um almoço muito bom. Voltamos para o nosso hotel para o Wilson descansar. Fui dar mais uma volta, pois seria minha última noite em Moscou e tudo que queria era ver, ver e ver.

 

Acordamos cedo e esperamos o transfer, porém descobrimos que não estava incluído no nosso pacote. Fique atento. Estando num bom hotel não peça transfer, pois os hotéis oferecem carro e motorista diferenciados por valor igual ou menor do que o mercado. Como hoje é domingo, o trânsito estava livre e chegamos muito rápido. Embarcamos para San Petersburgo.

O trânsito em Moscou é caótico todos os dias, mas nas sextas-feiras é pior. A população reclama do custo de vista, da má administração e da corrupção. Observei que hoje nasce uma nova Moscou com prédios modernos projetados por bons arquitetos e que um dia será muito visitada.

Aos arredores vimos vários condomínios sendo construídos para a classe média e até prédios melhores, como disse nosso motorista: para os endinheirados que querem fugir da turbulência da cidade grande. “Este é o capitalismo selvagem implantado aqui”, dizem os moscovitas. Perguntei ao motorista como foi a transição entre o comunismo e o capitalismo, já que todos tinham emprego, casas. etc. Ele me respondeu: “Ficamos nos mesmos lugares por 10 anos, trabalhamos muito e juntamos dinheiro. Muita gente enriqueceu muito rápido e houve um plano do governo onde tudo foi vendido a longo prazo e por pequenos valores. Então compramos nossas casas sem precisar sair delas. Outros compraram grandes empresas por valores simbólicos. Como sempre, os mais pobres preferiam o comunismo e os mais ricos, o capitalismo”.

Enfim, Moscou é monumental. Voltarei e recomendo que todos possam ter essa experiência. As mulheres, em especial, são lindas com a pele aveludada, harmonizando com a elegância.

 

 

 

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